AE BRASIL: “Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe”, disse sócio da LaMia

“Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe”, disse sócio da LaMia

Aeronave da Lamia que levava a delegação da Chapecoense até Medellín, na Colômbia (Foto: Reprodução/Twitter)

Por Lilian Moraes

Há quatro dias da tragédia que culminou na morte de 71 pessoas em Medellín, os indícios de que tudo poderia ser evitado começam a aparecer. De acordo com Douglas Machado, especialista em investigações de acidentes aéreos, o ocorrido teria outro desfecho se a empresa tivesse optado por realizar uma parada no Aeroporto de Bogotá para abastecer o avião. O que representaria um custo extra de R$ 10 mil. No entanto, segundo o Coronel Douglas, a escala em Bogotá que fica a 300km de Medellín, causaria um atraso de uma hora no horário estimado para a chegada da delegação.

– Na tentativa de agradar o cliente [o clube de futebol] provavelmente o piloto optou por chegar rápido ao destino, mas a partir de um risco desnecessário –relatou Machado, em entrevista à Folha.

No dia 30, um dia depois do acidente, o Secretário de Segurança Aérea da Colômbia, Freddy Bonilla, declarou que a LaMia apresentou um plano de voo diferente do que seguiu na noite da tragédia. De acordo com Bonilla, o documento chancelado pelos órgãos bolivianos relatava que o avião sairia de Cobija, na Bolívia com destino a Medellín. A distância entre Cobija e Medellín é de 2065km, o que se adaptaria à autonomia do avião, que de aproximadamente 3000km, porém, o voo partiu de Santa Cruz de La Sierra, localizada cerca de 300km da capital Colombiana.

Para esclarecer: Plano de voo é um documento exigido para que todas as companhias aéreas possam realizar uma decolagem. Nele, são repassadas informações como rota, altitude e autonomia do avião.
A autonomia de uma aeronave nada mais é do que o tempo estimado que ela pode voar sem precisar reabastecer.

Plano de voo e suas contradições

Aprovado por volta das 18h30m (hora de Brasília) da segunda-feira, o documento declarava que o tempo calculado para o voo entre Santa Cruz de La Sierra e Rio Negro – região metropolitana de Medellín – seria de 4 horas e 22 minutos, exatamente o mesmo tempo de autonomia da aeronave.


O plano de voo apresentado pela companhia aérea foi feito pelo também piloto brasileiro Miguel Quiroga, sócio da empresa. Na descrição do documento fica evidente de que não havia intenção de fazer alguma pausa para abastecimento (o que fica claro no campo origem/destino) e também, que a empresa sabia desde o começo que o tempo estimado para chegar em Rio Negro, não seria o suficiente para a autonomia do avião. O que se comprova na descrição do documento, onde as informações do tempo de voo e de autonomia do avião são as mesmas: 4 horas e 22 minutos.


Imagem mostra detalhes do plano de voo da aeronave. | Foto: Diário Catarinense 

Um outro registro mostra que Celia Castedo Monasterio, funcionária da AASANA, alertou Quiroga sobre os tempos (de autonomia e voo) iguais. No entanto, o piloto respondeu
– Não, senhora Celia, essa autonomia me passaram, é suficiente. Assim, não apresento mais nada. Vamos fazer em menos tempo, não se preocupe. É assim, fique tranquila, está bem. –
 O Departamento de Aviação Civil é o único órgão com autoridade para impedir a realização do voo, ou seja, Celia nada poderia fazer.